A crescente presença da inteligência artificial (IA) no mercado jurídico transformou radicalmente a forma como profissionais realizam análises, levantam dados e conduzem investigações corporativas. No contexto da due diligence, esse impacto é ainda mais visível: ferramentas automatizadas aceleram a coleta de informações, fazem leitura massiva de documentos e identificam inconsistências em poucos segundos.
Porém, apesar dessas capacidades, a IA não substitui o papel central do advogado — ao contrário, o torna ainda mais indispensável. A tecnologia amplia a eficiência, mas é o profissional jurídico que confere segurança, interpretação, rigor técnico e responsabilidade ao processo. Assim, em um cenário cada vez mais automatizado, a due diligence continua sendo uma atividade essencialmente humana, estratégica e jurídica.
1. A IA como ferramenta, não como decisora
As ferramentas de IA têm se mostrado valiosas para ler milhares de documentos contratuais rapidamente, identificar cláusulas sensíveis, rastrear riscos societários e regulatórios, cruzar bases públicas de dados, detectar padrões financeiros e indícios de fraude.
No entanto, essas análises são estatísticas, probabilidades baseadas em modelos treinados com dados que podem estar desatualizados ou enviesados. A máquina não sabe o que é
juridicamente relevante, nem compreende nuances interpretativas; ela apenas aponta possíveis alertas.
A decisão, a ponderação e o julgamento jurídico continuam sendo atribuições exclusivas do advogado.
2. Interpretação jurídica é insubstituível
A due diligence não é apenas a coleta de documentos ou geração de relatórios. Ela envolve uma interpretação de riscos regulatórios e contratuais, análise do impacto jurídico-econômico desses riscos, ponderação entre oportunidades e passivos e emissão de pareceres e recomendações estratégicas.
Ferramentas de IA, por exemplo, podem indicar o conteúdo de uma cláusula de não concorrência, mas somente o advogado consegue avaliar se ela é válida, se viola normas locais, se há risco de litígio e se impacta o valuation do negócio.
A tecnologia processa dados, mas apenas o advogado processa direitos.
3. A responsabilidade jurídica permanece humana
A due diligence é um processo que envolve a responsabilidade técnica do advogado, o dever de sigilo, sua responsabilidade civil pelo trabalho desenvolvido, bem como de possíveis implicações penais.
Nenhuma dessas responsabilidades recai sobre a IA. Quem responde legalmente é o advogado.
Assim, confiar exclusivamente em ferramentas automatizadas coloca a empresa em risco, pois não há substituto para o profissional responsável que assina o parecer.
4. A IA não compreende contexto, estratégia nem intencionalidade
Um ponto crítico é que a IA não compreende cenário econômico, não avalia cultura organizacional, não mensura risco político, não entende subjetividade de negociações, não antecipa impactos comportamentais ou reputacionais.
Esses elementos — centrais na due diligence moderna — exigem experiência, julgamento e percepção humana. Mesmo quando dados são precisos, a interpretação do contexto jurídico e negocial depende do advogado.
5. O advogado é o curador das conclusões da IA
A IA pode produzir relatórios extensos, sugerir conclusões probabilísticas, identificar riscos repetitivos; mas é o advogado quem valida, corrige, aprofunda e contextualiza as conclusões.
O advogado atua como um curador da informação. Ele filtra os riscos reais versus falsos positivos. É o intérprete jurídico das evidências. Estrategista que decide como mitigar ou aproveitar cada achado.
Sem essa curadoria, a due diligence se torna apenas um conjunto de dados desconexos, inadequado para embasar decisões de alto valor.
6. A IA aumenta a eficiência, mas não o rigor jurídico
A grande vantagem da IA é a velocidade. A grande vantagem do advogado é a qualidade jurídica. A IA potencializa o trabalho; o advogado garante a confiabilidade.
7. Conclusão: tecnologia não substitui o advogado — potencializa
A due diligence feita com IA não reduz a importância do advogado; ela aumenta. Quanto mais dados são gerados, mais necessária é a capacidade humana de interpretar, contextualizar, responsabilizar-se e orientar decisões estratégicas.
A IA transformou o processo, mas não alterou seu elemento essencial. A due diligence continua sendo, em sua essência, um exercício jurídico e estratégico, conduzido por advogados.
A tecnologia é aliada; o advogado é indispensável.